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Meu primeiro terapeuta

Narayana Salles Franco · 4 de jul. de 2026 · 3 min de leitura

Eu tinha uns sete anos quando inventei de escrever um diário. Peguei um caderno rosa da Barbie e comecei com o famoso “querido diário”, tenho ele guardado até hoje. Volta e meia me pego relendo as narrações da minha eu criança: frases escritas sob a perspectiva de quem via o mundo a partir de um lugar ainda incerto.

Quando somos crianças, o mundo parece grande e pequeno ao mesmo tempo, grande porque temos pouco tamanho para muito mundo, e pequeno porque tudo se resume ao quintal onde a gente brinca. Porque, como diria Manoel de Barros, esse quintal é maior que a cidade.

Fato é que, por causa daquele diário, descobri que gostava de escrever. Ver meus pensamentos virarem letras no papel parecia mágico. Cresci um pouquinho e conheci a poesia. Descobri que um texto não precisava ter começo, meio e fim, e gostei da ideia de que poesia é só sentimento escrito.

Comecei a escrever em caderninhos que não mostrava para ninguém. Guardava por um tempo, tentava decorar cada estrofe e depois jogava fora, só para não correr o risco de alguém descobrir que eu era meio que escritora. Era a idade da vergonha: o limbo entre a infância e a vida adulta.

Depois de alguns anos na “ressaca” da escrita, tive coragem de voltar. Tive coragem até de mostrar meus textos para uma pessoa ou outra. Já tentei compartilhar nas redes sociais, mas logo desisti. Acho, inclusive, que a idade da vergonha dura a vida toda.

Acontece que hoje, de tempos em tempos, me encontro com alguém na clínica e acendo a luz da escrita terapêutica. Explico do que se trata e faço um convite. Alguns acham estranho, outros topam de cara, mas todos têm algo em comum: no final, sempre me dizem “foi tão bom pôr pra fora”. E eu me vejo refletida ali, nessa pessoa, relembrando cada momento em que a escrita foi, para mim, um resgate. Aquele caderninho rosa foi meu primeiro terapeuta.

Foi pensando em tudo isso que decidi criar este espaço. Pesquisei plataformas, encontrei esta e, rolando o feed, gostei do que vi. Abri o Word e escrevi este texto de apresentação, que talvez apresente menos fatos e mais sentidos.

Aqui não há roteiro nem tema único. Às vezes vou compartilhar, às vezes vou guardar para mim. Este espaço é para falar da vida, dos afetos, das artes e das angústias. Te convido não só a ler, mas a se inspirar, para que juntos possamos encontrar sentido na escrita.

E sigo torcendo para que cada palavra engolida encontre forma!

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