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lutocrescimento

O luto que não aprendemos a nomear

Narayana Salles Franco · 17 de ago. de 2026 · 3 min de leitura

Existe um luto profundamente importante, mas pouco nomeado: o da transição da infância para a adolescência.

Embora eu dedique boa parte das minhas horas de trabalho atendendo esse público, o insight para escrever este texto partiu de um livro que li. Contextualizando vocês, trata-se da obra Se Deus me chamar não vou, da autora Mariana Salomão Carrara. De início, ao me deparar com o título, imaginei que essa negativa ao chamado divino estivesse relacionada a algum rompimento com o religioso. No entanto, descobri que se trata, na verdade, de uma declaração de ódio à morte e à velhice.

Por curiosidade, decidi ler. Confesso que, logo de cara, me deixei enganar pela escrita excepcional de Mariana, que narra a história sob a perspectiva de uma criança de 11 anos, fazendo-me acreditar, de fato, que aquele livro era a publicação de um diário. Não era, informação que em nada diminuiu a experiência.

O livro conta a história de uma menina nessa idade, que compartilha com o leitor todas as dores desse limbo existencial: ela não é mais criança, mas também não se reconhece como adolescente. Sua narrativa nos lembra que a transição da infância para a vida adulta pode ser um processo cruel, frequentemente rodeado por faltas.

O luto de deixar para trás a infância não se trata apenas de números. É o luto pelo cuidado recebido, que já não é o mesmo. É o luto pelo brinquedo que perdeu o sentido. O luto pelo colo que já não parece disponível, e que, mesmo quando está, parece não combinar. O corpo deixa de se reconhecer no espelho, sentimentos e desejos surgem, assim como as inseguranças. Tudo isso somado a um turbilhão de hormônios que invade o organismo, trabalhando no amadurecimento do corpo e da mente.

Ao ler a história de Maria, lembrei da fragilidade dos 11 anos. Da certeza que me atravessava naquela época de que eu já sabia tudo, quando, na verdade, havia tanto a aprender. Lembrei de cada luto não elaborado, de cada desejo não realizado por falta de oportunidades, os mesmos que foram engavetados por eu já me achar “velha demais”.

Escrevo este texto não apenas como psicóloga, embora essa tenha sido a motivação para criar esta conta, mas como um convite que faço a mim mesma: recordar, remendar, ressignificar. Deixo aqui para vocês esse mesmo convite: o de enfrentar nossos lutos, acreditando fielmente que a vida é isso. Ela segue. Nem sempre em linha reta, mas segue.

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